Episode 194

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Published on:

24th Jul 2026

Fusionamento de Dados e Inteligência de Decisões. Capítulo 1

Neste conteúdo, Luiz Henrique Borges, Diretor da Inspect, elucida a crescente complexidade das organizações criminosas no Brasil e a urgência da adoção de soluções de fusionamento de dados pelas instituições de segurança pública. Ele argumenta que, na contemporaneidade, tais organizações não operam mais de forma isolada ou territorial, mas sim como entidades altamente integradas que utilizam sofisticados recursos tecnológicos para expandir suas operações e influências. O diálogo facilita uma análise abrangente acerca da transformação do crime, que, em resposta às novas dinâmicas sociais e tecnológicas, evolui continuamente, exigindo das agências de segurança uma adaptação ágil e eficiente. Este capítulo não apenas destaca a importância da coleta e análise de dados, mas também enfatiza a necessidade imperativa de que as instituições desenvolvam capacidades para transformar informações dispersas em inteligência acionável, propond0-se a preparar a audiência para uma compreensão mais profunda das implicações do fusionamento de dados na eficácia das operações de segurança pública e na luta contra o crime organizado.

Saiba mais!

Transcript
ANFITRIÃO:

Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! No episódio de hoje, vamos adentrar um dos temas mais estratégicos e, ao mesmo tempo, mais desafiadores da segurança pública contemporânea: o fusionamento massivo de dados e o papel das plataformas de Inteligência de Decisões no enfrentamento ao crime organizado. Vivemos uma era em que organizações criminosas operam em rede, ultrapassam fronteiras físicas, integram atividades ilícitas diversas e utilizam, com crescente sofisticação, recursos tecnológicos para expandir sua atuação.

Diante desse cenário, as instituições de segurança pública e justiça criminal enfrentam um desafio central: como transformar grandes volumes de dados dispersos em inteligência acionável, capaz de antecipar ameaças, orientar decisões e gerar resultados concretos? É nesse contexto que emergem as soluções de Inteligência de Decisões, capazes de integrar, correlacionar e analisar dados oriundos de múltiplas fontes — estruturadas e não estruturadas — permitindo a construção de uma visão holística e estratégica do fenômeno criminal. Para nos ajudar a compreender esse universo, recebo hoje LUIZ BORGES, o Diretor de Operações da INSPECT, empresa que atua como distribuidora exclusiva, no Brasil, de soluções tecnológicas avançadas voltadas à inteligência, investigação e apoio à tomada de decisão. Seja muito bem-vindo ao Hextramuros, Borges! Na satisfação deste momento, apresento os meus agradecimentos por você ter aceitado ao convite e ilustrar a este canal com a sua qualificada participação! Uma honra tê-lo conosco! Nos últimos anos, temos observado uma transformação significativa na forma de atuação das organizações criminosas, que passaram a operar de maneira cada vez mais integrada, descentralizada e orientada por dados.

Diante desse cenário, como avalias a expansão da complexidade do crime e de que forma isso impacta diretamente a necessidade de adoção de soluções de fusionamento de dados pelas instituições de segurança pública?

CONVIDADO:

Antes de tudo, eu queria agradecer pelo convite! Para mim uma satisfação muito grande estar aqui no Hextramuros e poder contribuir sobre um tema tão relevante no contexto das nossas agências de segurança pública! Eu costumo me apresentar como um consultor de tecnologia voltada para a atividade de inteligência, investigação. Já são quase quinze anos atuando nesse nicho de mercado, especificamente, tecnologias para apoiar as diversas agências de segurança pública no Brasil, sempre atento às necessidades reais das instituições dos nossos clientes, os desafios vivenciados pelos investigadores, os analistas, enfim, os diversos atores que a gente tem a oportunidade de interagir. No que diz respeito ao tema que você trouxe em relação às organizações criminosas, à evolução dos crimes e como as soluções de fusionamento de dados podem ser úteis no contexto das diversas agências, o Brasil vive em termos de organizações criminosas, uma situação muito peculiar: o mapa das organizações criminosas de dois mil e vinte e quatro, elaborado pela SENAPPEN aponta a existência de pelo menos oitenta e oito grupos criminosos mapeados dentro do sistema prisional brasileiro, entre eles, naturalmente, o pcc e o comando vermelho que, hoje, já possuem não só mais a atuação nacional como também internacional! Essas organizações criminosas deixaram de ser grupos ligados especificamente ao domínio territorial, ao tráfico de drogas ou ao comércio ilegal de armas e passaram a atuar como redes organizadas com capacidade logística, financeira, tecnológica, ampla atuação territorial, enfim! A gente vê uma evolução muito grande e uma das coisas que chamam a atenção é que esses grupos criminosos entenderam o valor da informação! Investigações e operações recentes mostram estruturas, departamentos internos de inteligência e contrainteligência dentro dessas organizações criminosas voltados sobretudo ao monitoramento de autoridades, à proteção das próprias lideranças, à segurança das comunicações, identificação inclusive de vulnerabilidades para acesso a sistemas de uso restrito pelo governo! Além disso, a gente percebe hoje a atuação econômica das organizações criminosas se sofisticou absurdamente! O que era tratado apenas como uma lavagem de dinheiro para poder dar lastro àquele recurso oriundo da atividade originalmente criminosa, isso, modificou! A gente viu recentemente operações mirando os braços financeiros ligados ao pcc, inclusive com a investigação sobre a atuação de fintechs - fundos de investimento - ou seja, operações realizadas no coração do mercado financeiro brasileiro, Faria Lima especificamente, e a ligação de algumas dessas instituições com o crime organizado e atuação, também, no setor produtivo da economia, principalmente no setor de combustíveis, com estruturas empresariais formais. Então, deixou de ser uma atividade que originalmente lavava-se dinheiro do crime organizado daquelas atividades como o tráfico de drogas e vendas de armas e passaram a ter uma atuação forte na economia formal, tanto que, hoje, grande parte dos atores falam sobre o Follow the Product - siga o produto – e, não mais, somente o dinheiro, uma vez que as organizações criminosas são donas de empresas e de negócios formais. Então, a gente não está falando mais tão somente do crime armado na ponta! A gente está falando de uma estrutura sofisticada, que já está atuando formalmente na economia, movimentando recursos e se infiltrando cada vez mais em cadeias produtivas. Os Estados Unidos oficialmente classificaram o pcc e o comando vermelho como organizações terroristas estrangeiras! O fato em si revela a percepção internacional sobre não só a dinâmica, como também a dimensão que essas organizações criminosas brasileiras, que são as maiores hoje, têm atuação, conexões para além das fronteiras nacionais alcançando outras regiões – Américas, de um modo geral, a Europa e outros países do Oriente Médio! Em resumo, o crime evoluiu e a gente vê isso claramente! Além disso, eu gosto sempre de recorrer a um artigo publicado no Anuário Brasileiro de Segurança Pública que trata das novas configurações dos crimes patrimoniais no Brasil. Esse artigo é bem interessante porque ele mostra como a dinâmica do crime patrimonial mudou, sobretudo com o evento da pandemia. Os chamados crimes de oportunidade - furtos e roubos - sofreram uma redução significativa, uma vez que, com as medidas adotadas pelos governos de colocar as pessoas dentro de casa e reduzir a circulação de pessoas nas ruas, por consequência, diminui a quantidade de possíveis vítimas para esses tipos de crimes. Então, aquele criminoso comum, de rua, passa a não ter mais vítimas nas ruas e, as residências que poderiam ser invadidas, agora, estão com pessoas, mas, o crime não deixou de ocorrer! Em que pese a gente tenha percebido uma diminuição drástica nesse números, e é isso que o artigo reporta, o crime não desapareceu, ele não deixou de ocorrer - muito pelo contrário - ele migrou! Então, o que a gente observa, a partir de dois mil e dezoito, é uma forte reconfiguração dos crimes patrimoniais, com o crescimento expressivo dos crimes de estelionato, principalmente oriundos das fraudes eletrônicas e dos golpes virtuais, os golpes de WhatsApp e por aí vai! Entre dois mil e dezoito e dois mil e vinte e dois, houve um crescimento na ordem de 326% dos crimes de estelionato no Brasil! Em dois mil e vinte e dois, apenas, foram mais de 1.8 milhão de ocorrências - sem falar da subnotificação desse tipo de crime – mas, pegando aqueles que foram reportados, uma média de aproximadamente duzentos e oito casos por hora! Não por acaso, em dois mil e vinte e um, o legislador viu a necessidade de tipificar a fraude eletrônica justamente como uma tentativa de resposta ao crescimento dos golpes praticados por meio das redes sociais, dos aplicativos de mensagem, contatos telefônicos, enfim, os meios digitais diversos. O celular passa a ser o principal meio de acesso do criminoso à sua vítima. Então, você tem diversos tipos de crime ocorrendo, tendo como porta de entrada o celular, desde um aparelho furtado ou roubado, no sentido de ter acesso às contas bancárias para a realização de transferências, como também os golpes, na maioria das vezes, através de técnicas de engenharia social, levam um terceiro a transferir recursos para a conta de laranjas ligados a essas organizações criminosas. Esse é um cenário em que as agências de segurança pública e os agentes de segurança pública estão inseridos aqui no Brasil: de um lado você tem as organizações criminosas com uma enorme capacidade de recrutamento de recursos humanos, recursos financeiros à disposição para contratação e uso de tecnologia e, do outro lado o Estado que não consegue, na mesma medida e na mesma velocidade, abrir concursos públicos, formar pessoas, capacitar equipes, contratar tecnologias porque o esforço administrativo de fazer um concurso, de fiscalizar e operar dentro dos marcos legais adiciona um overhead. O Estado é lento! Ele não tem a mesma agilidade e os recursos, também, são finitos, tanto os humanos quanto os recursos financeiros! A gente está vivendo, claramente, uma batalha assimétrica! E, é diante dessa assimetria que a tecnologia deixa de ser acessória e passa a ser primordial! O objetivo da tecnologia não é substituir o agente público - muito pelo contrário - é permitir, através de uma atuação integrada, ser mais eficiente, ter ganhos de escala, é tratar os dados de modo a ter insights e orientar, sobretudo, o decisor à tomada de decisões de forma coerente! Se o crime opera em rede, o Estado, também, precisa operar em rede! Se o crime coleta informações e cruza dados para poder tomar decisões rapidamente, as instituições públicas, na mesma medida, também precisam transformar dados dispersos em informação e inteligência acionável! E é exatamente aí que entra o tema da nossa conversa hoje: como o funcionamento de dados pode auxiliar as agências de segurança pública e as autoridades no processo investigativo, na produção de conhecimento e na tomada de decisão a partir dos diversos dados, das diversas fontes existentes concentradas num ponto único.

ANFITRIÃO:

Honorável Ouvinte! Considerando que o objetivo deste primeiro bloco é ampliar, por meio da fala de nosso convidado, a introdução conceitual ao tema e preparar a audiência para a compreensão da importância do fusionamento de dados ao longo da série, vamos, aqui, fazer uma pausa para reflexão! Borges, fostes muito certeiro! Fica evidente que, em um ambiente cada vez mais complexo e marcado pelo excesso de informações, o verdadeiro diferencial não está apenas em possuir dados, mas em conseguir integrá-los, compreendê-los e transformá-los em decisões estratégicas.

No próximo episódio, vamos aprofundar justamente esse conceito de fusionamento de dados! Vamos explorar como diferentes bases de informação podem ser conectadas para revelar relações invisíveis aos métodos tradicionais de análise, ampliando significativamente a capacidade de investigação, produção de inteligência e apoio à tomada de decisão nas instituições de segurança pública e justiça criminal.

Este foi mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião, convidando a audiência para, no próximo conteúdo, continuarmos essa conversa sobre as importantes transformações tecnológicas aplicadas à inteligência contemporânea. Acesse nosso website e saiba mais sobre nossos programas! Inscreva-se e compartilhe nosso propósito! Será um prazer ter a sua colaboração! Pela sua audiência, muito obrigado e até a próxima!

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About the Podcast

Hextramuros Podcast
Vozes conectando propósitos, valores e soluções da segurança pública, justiça criminal e tecnologias!
Ambiente para narrativas e entrevistas com pesquisadores e/ou profissionais da segurança pública, justiça criminal e empresas de tecnologia, no intuito de estabelecer e/ou ampliar a conexão com temas, produtos e serviços de interesse das referidas áreas.
Trata-se, também, de espaço em que este subscritor, lastreado na vivência profissional e experiência amealhada nas jornadas no serviço público, busca conduzir (re)encontros, promover ideias e construir cenários para a aproximação entre a academia, a indústria e as forças de segurança.

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Washington Clark Santos

Produtor e Anfitrião.
Foi servidor público do estado de Minas Gerais entre 1984 e 1988, atuando como Soldado da Polícia Militar e Detetive da Polícia Civil.
Como Agente de Polícia Federal, foi lotado no Mato Grosso e em Minas Gerais, entre 1988 e 2005, ano em que tomou posse como Delegado de Polícia Federal, cargo no qual foi lotado em Mato Grosso - DELINST -, Distrito Federal - SEEC/ANP -, e MG.
Cedido ao Ministério da Justiça, foi Diretor da Penitenciária Federal de Campo Grande/MS, de 2009 a 2011, Coordenador Geral de Inteligência Penitenciária, do Sistema Penitenciário Federal, de 2011 a 2013.
Atuou como Coordenador Geral de Tecnologia da Informação da PF, entre 2013 e 2015, ano em que retornou para a Superintendência Regional em Minas Gerais, se aposentando em fevereiro de 2016. No mesmo ano, iniciou jornada na Subsecretaria de Segurança Prisional, na SEAP/MG, onde permaneceu até janeiro de 2019, ano em que assumiu a Diretoria de Inteligência Penitenciária do DEPEN/MJSP. De novembro de 2020 a setembro de 2022, cumpriu missão na Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, no Ministério da Economia e, posteriormente, no Ministério do Trabalho e Previdência.
A partir de janeiro de 2023, atua na iniciativa privada, como consultor e assessor empresarial, nos segmentos de Inteligência, Segurança Pública e Tecnologia.