Episode 167

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16th Jan 2026

INSURGÊNCIA CRIMINAL NA REGIÃO AMAZÔNICA. CAPÍTULO 3

Depois de analisarmos os desafios estruturais e tecnológicos que moldam o enfrentamento à insurgência criminal na Amazônia, neste conteúdo, finalizando nossa entrevista com ALLISON CARVALHO, Sargento da PMAM, miramos o futuro e as estratégias que realmente podem gerar impacto, abordando experiências bem-sucedidas no combate a esses grupos, o avanço das tecnologias aplicadas à inteligência policial, da integração efetiva entre as forças estaduais e federais, além de explorar a importância das políticas públicas que alcançam as comunidades vulneráveis.

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Transcript
ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião!

Depois de analisarmos os desafios estruturais e tecnológicos que moldam o enfrentamento à insurgência criminal na Amazônia, no conteúdo de hoje, finalizando nossa entrevista com Alisson Carvalho, Sargento da Polícia Militar do Amazonas, miramos o futuro e as estratégias que realmente podem gerar impacto abordando experiências bem-sucedidas no combate a esses grupos, o avanço das tecnologias aplicadas à inteligência policial, da integração efetiva entre as forças estaduais e federais, além de explorar a importância das políticas públicas que alcançam as comunidades vulneráveis.

Sargento Alisson; retomando nossa conversa e, considerando a complexidade da insurgência criminosa na Amazônia, quais são as estratégias mais eficazes que já foram aplicadas no combate a esses grupos?

CONVIDADO:

A grande evolução que nós tivemos em relação à segurança pública, no quesito repressão, foi a construção de três grandes bases, espalhadas nas principais calhas dos rios aqui, que são a calha do Rio Negro, a calha do Rio Solimões e a do Rio Amazônas, no qual todos eles se interligam no final para fazer esse escoamento da grande quantidade de entorpecentes. Então, verificamos que esse aumento exponencial da apreensão de drogas que, ano passado, superou trinta e cinco toneladas de entorpecentes apreendidas, referente aos outros anos, que não tinha essa criação, com certeza, melhorou bastante nesse quesito de apreensão! Entretanto, sabemos que a segurança pública precisa ser estendida aos pequenos municípios e comunidades e, nisso, verifica-se ainda que ainda não conseguimos efetivar esse tipo de serviço conjunto com todas as instituições públicas nos pequenos municípios, gerando economias, gerando oportunidades, gerando realmente uma qualidade de vida para essas pessoas! Mas, a grande repressão que está sendo feita, ela está sendo dinamizada e está forçando o crime organizado a fazer investimentos para criar novas maneiras de fazer esse escoamento, que é através de aeronaves, seja de pequeno porte, para não ser localizado através de radar e helicópteros!

Fizemos diversas apreensões! Pequenas aeronaves em aeroportos clandestinos, em pistas clandestinas construídas dentro dessas extensões territoriais, na qual eles escoam principalmente a cocaína, por ser uma carga mais valiosa para a facção. O Amazonas tem evoluído, sim, muito na questão repressiva, mas creio que precisamos ainda mais efetividade e interação entre os órgãos federais, municipais e estaduais para que a gente tenha resultados positivos nesse problema!

ANFITRIÃO:

Há vinculação entre a expansão da insurgência e dominação territorial na Amazônia e períodos de descontrole em sistemas prisionais na região? Caso positivo, podes comentar sobre tais registros?

CONVIDADO:

Com toda certeza, está totalmente interligado ao sistema prisional, já que as grandes lideranças, geralmente com muita dificuldade, mas através de um serviço bem técnico de investigação, conseguimos fazer grandes apreensões de retirada de pessoas e saber sobre empresas de lavagem de dinheiro, entre outros! Entretanto, você tira apenas, como nós chamamos aqui, de "quimera". Você tira uma cabeça da rua, mas existem outras, devido à estruturação daquela facção criminosa! Você precisa realmente trabalhar em cima da parte financeira do crime organizado, com certeza, mas a repressão é muito mais do que necessária!

Tivemos grandes evoluções relacionadas ao sistema prisional aqui, a partir do ano de dois mil e quinze, dois mil e dezesseis, no qual, através de algumas matérias, podemos ver aqui lideranças do crime organizado que tinham acesso a celas luxuosas, com televisões, com freezer, com comida à vontade, churrasco! A partir disso, teve uma grande evolução e controle do sistema prisional! Entretanto, na rua, você retira essa pessoa, no qual tem um cargo de liderança dentro da facção. entretanto, se a gente não começar a suprimir, a retirar dessas pessoas o poder financeiro dessas organizações criminosas, a gente vai só, realmente, estar prendendo pessoas e fazer um serviço que é muito comum as pessoas falarem - sobre enxugar gelo! Isso gera desmotivação! Isso gera descontrole social! Isso gera um grande problema que, no final das contas, o serviço acaba se tornando pífio na frente do resultado no qual se quer que tenha.

ANFITRIÃO:

Pela já mencionada complexidade formada pela extensão e relevo da região, o Estado se localiza distante e, assim, face o vácuo do qual se apropriam as organizações criminosas. Dada a importância econômica ambiental da região, qual o risco da insurgência criminal à soberania do país?

CONVIDADO:

Observamos que está totalmente ligado e o Estado, infelizmente, ainda não se deu conta do que isso está interligado sobre a soberania do país! Volto a dizer: esses espaços criados por esse vácuo que chamamos de "black spots", eles são efetivados com a ausência estatal!

E, às vezes, o Estado acaba negligenciando quando ele fala que uma viatura circula naquele espaço. Mas, o fato de uma viatura estar circulando não quer dizer que ele detém o controle daquele espaço! Ambientes aqui, que os índices criminais são baixos, porque a procura pelas denúncias nas delegacias que cobrem esses espaços já são mínimas! Então, como o Estado se baseia nesses índices para fazer a aplicabilidade, principalmente relacionado aos homicídios - quando essa área demonstra baixa efetivação dos homicídios - na lógica, parece que o ambiente está controlado pelo Estado, mas não! É porque, agora, as pessoas que ali residem buscam o crime organizado para a solução dos seus problemas! Então, foi recriada uma nova soberania com leis próprias, com cultura própria, com economia própria, para que isso não seja mais repassada a burocracia do Estado na solução de algum crime! Um grande exemplo, são espaços aqui que não são invasões, são loteados, são grandes complexos habitacionais, como o "Viver Melhor"! Nós temos um bairro aqui que moram em torno de trinta mil pessoas! Então, o índice de denúncias na delegacia é muito mínimo. Existem relatos de algumas pessoas no qual trabalhamos nesse local e pudemos colher algumas informações, que os traficantes daquela área, para fazer a contabilidade ou para fazer o "embalo" desse entorpecente, expulsam as pessoas das suas casas por um certo tempo. Elas vão morar em outro apartamento! Isso, ele consegue fazer essa mudança de ambiente constante, dificultando o trabalho policial local, que trabalha com a ostensividade! Observamos que, nem sempre, um índice baixo, ele quer dizer que o Estado está com controle! Isso, em um local, em dez locais, em cinquenta locais numa cidade quer dizer que o país já perdeu sua soberania! E a Amazônia, na sua grande extensão, pode ter certeza, como o anuário pôde comprovar - que saiu esta semana - relatou que das mais das setecentas e setenta cidades existentes na Amazônia - que abrange diversos estados - mais de cinquenta por cento já são dominados pelo tráfico de drogas, pelo fato dessa existência desse movimento de insurgêcia, na qual o Estado, às vezes, não assume, justamente, por não querer falar que perdeu esse poder! E isso é uma negligência que vamos levando e, mais na frente, existe um problema que já não tem mais controle estatal!

ANFITRIÃO:

Sargento; do ponto de vista social, que tipo de políticas públicas poderiam ajudar a reduzir a influência dessas facções sobre as comunidades locais?

CONVIDADO:

Em relação à vista social, observa-se que o investimento educacional e familiar é muito mais do que necessário e prioritário para a gente ver uma mudança! Não que uma família bem estruturada não vá ter problemas, às vezes, de aliciamento mas, mantendo costumes e mantendo uma certa ética familiar, você verifica uma qualidade e menos tendência para que aquele jovem, adolescente, seja aliciado pelo crime organizado. Hoje, temos uma grande dificuldade porque a cultura está muito latente. Existe uma teoria em relação a uma cultura chamada narcocultura, na qual fala que o jovem negro não tem oportunidade e, por isso, ele deve se rebelar contra o Estado e qualquer serviço do Estado! Ele é nocivo àquela pessoa, àquela comunidade ou àquela família! Temos que combater diversas vertentes ao mesmo tempo - além do esporte, além do lazer, a economia, entre outros - para que a gente veja resultados com mais eficácia! Não adianta nós atuarmos somente a aumentar a maioridade penalou, vamos só trabalhar na legalização das drogas ou vamos só trabalhar em construir projetos sociais relacionados ao esporte! Todos têm que agir em conjunto! Tanto as organizações civis como o Estado e as privadas, para que a gente consiga ter uma efetivação do serviço e realmente ver e observar de perto o funcionamento disso na qualidade de vida dessas pessoas!

ANFITRIÃO:

Qual a sua visão de futuro ante ao cenário aqui descrito? É possível reverter esse quadro nos próximos anos?

CONVIDADO:

Temos que ser muito "pé no chão" quando o assunto se trata de futuro! Sabemos que isso se trata de um trabalho a longo prazo! Para que a gente verifique uma solução mais eficaz e eficiente, precisamos entender e começar, desde já, essa integração verdadeira entre as instituições públicas e a comunidade em geral - que traz uma realidade, às vezes, até não enxergada pela situação pública! Então, isso é muito evidente e muito claro! Segurança pública não se trata de assunto só de polícia! Todos nós temos responsabilidades que devemos cumprir e devemos dialogar! Hoje, segurança pública está sendo um assunto muito bem difundido. Está sendo mais debatido! Entretanto, porque saiu do controle do Estado, a população precisa realmente ter manifestações favoráveis, assim como as instituições públicas precisam melhorar a sua hibridização informacional! Precisam interagir mais entre si para que a gente tenha um resultado mais eficaz e a população tenha segurança efetiva de verdade e as pessoas consigam viver com qualidade de vida sem ter essa dependência do crime organizado em certas situações essenciais!

ANFITRIÃO:

Meu caro, marchando para o final de nossa entrevista, sou imensamente grato pela sua contribuição! Desejando sucesso em sua jornada, deixo este espaço para suas considerações finais! Grande abraço!

CONVIDADO:

Eu que fico extremamente agradecido pelo convite e, aqui, complemento que todos nós devemos ocupar espaços! A rede social, hoje, é uma ferramenta excelente para aproximar pessoas e a gente fazer essa troca de informação de forma mais acelerada e mais rápida. Então, é muito interessante que você ocupe espaços! Vocês, que são simpatizantes da segurança pública ou participam diretamente ou indiretamente desses serviços, contribuam com informações, participem de fóruns de discussões que, só assim, nós saberemos realmente as dimensões do problema que estamos enfrentando e, assim, conseguimos fazer com que o problema da Amazônia, que se estende em todo o território nacional - eu tenho certeza que os problemas que acontecem também no Sul, no Sudeste, no Centro-oeste do nosso Brasil - também afeta diretamente os problemas aqui no nosso Amazonas! Vamos trocar informações, vamos ocupar espaços! Mais uma vez aqui, meu amigo, fico grato por todo esse espaço que você me proporcionou e conte sempre comigo! Um forte abraço e até a próxima!

ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Este foi mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! No conteúdo de hoje, finalizamos a conversa com o Sargento da Polícia Militar do Amazonas, Alisson Carvalho, abordando a insurgência criminal na região amazônica. Acesse o nosso website e saiba mais sobre este conteúdo! Inscreva-se e compartilhe o nosso propósito! Será um prazer ter a sua colaboração! Pela sua audiência, muito obrigado e até a próxima!

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About the Podcast

Hextramuros Podcast
Vozes conectando propósitos, valores e soluções.
Ambiente para narrativas, diálogos e entrevistas com operadores, pensadores e gestores de instituições de segurança pública, no intuito de estabelecer e/ou ampliar a conexão com os fornecedores de soluções, produtos e serviços direcionados à área.
Trata-se, também, de espaço em que este subscritor, lastreado na vivência profissional e experiência amealhada nas jornadas no serviço público, busca conduzir (re)encontros, promover ideias e construir cenários para a aproximação entre a academia, a indústria e as forças de segurança.

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Washington Clark Santos

Produtor e Anfitrião.
Foi servidor público do estado de Minas Gerais entre 1984 e 1988, atuando como Soldado da Polícia Militar e Detetive da Polícia Civil.
Como Agente de Polícia Federal, foi lotado no Mato Grosso e em Minas Gerais, entre 1988 e 2005, ano em que tomou posse como Delegado de Polícia Federal, cargo no qual foi lotado em Mato Grosso - DELINST -, Distrito Federal - SEEC/ANP -, e MG.
Cedido ao Ministério da Justiça, foi Diretor da Penitenciária Federal de Campo Grande/MS, de 2009 a 2011, Coordenador Geral de Inteligência Penitenciária, do Sistema Penitenciário Federal, de 2011 a 2013.
Atuou como Coordenador Geral de Tecnologia da Informação da PF, entre 2013 e 2015, ano em que retornou para a Superintendência Regional em Minas Gerais, se aposentando em fevereiro de 2016. No mesmo ano, iniciou jornada na Subsecretaria de Segurança Prisional, na SEAP/MG, onde permaneceu até janeiro de 2019, ano em que assumiu a Diretoria de Inteligência Penitenciária do DEPEN/MJSP. De novembro de 2020 a setembro de 2022, cumpriu missão na Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, no Ministério da Economia e, posteriormente, no Ministério do Trabalho e Previdência.
A partir de janeiro de 2023, atua na iniciativa privada, como consultor e assessor empresarial, nos segmentos de Inteligência, Segurança Pública e Tecnologia.