Episode 201

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11th Sep 2026

Operação Alpha. Capítulo 2.

Conclusão da entrevista com o Veterano Delegado de Polícia Federal ANTÔNIO BORGES FILHO, autor do livro OPERAÇÃO ALPHA - A ROTA DA COCAÍNA DE CALI NO BRASIL, que narra detalhes da investigação iniciada e conduzida por ele, entre os anos de 1993 e 1994, que culminou na apreensão de 7.3 toneladas de cocaína.

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Transcript
ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! Estamos de volta para conclusão da conversa com Veterano Delegado da Polícia Federal, ANTONIO BORGES FILHO, autor do livro Operação Alpha – A Rota da Cocaína de Cali no Brasil. No primeiro bloco desta entrevista, conhecemos o contexto histórico da Operação Alpha, compreendemos como nasceu uma investigação que desafiou os recursos disponíveis à época e refletimos sobre o papel da inteligência policial, da liderança investigativa e da perseverança diante de um adversário extremamente organizado. Mas, como toda grande operação, houve momentos em que cada decisão poderia significar o sucesso ou o fracasso de meses de trabalho. É a partir desses detalhes críticos que passaremos a conversar agora. Dr. Borges; toda grande investigação possui momentos decisivos, nos quais uma decisão correta pode determinar o sucesso da operação, enquanto um erro pode comprometer meses de trabalho! Houve algum episódio durante a Operação Alpha em que o senhor precisou tomar uma decisão particularmente difícil? Como foi administrar essa responsabilidade sabendo da relevância estratégica da investigação?

CONVIDADO:

Sinceramente, isso não ocorreu na operação Alpha, porque as decisões eram tomadas sempre em grupo! Creio que a Operação Alpha só aconteceu e com o resultado positivo porque as decisões eram muito discutidas, debatidas, analisadas e havia um consenso! Até para mostrar isso, no livro tem uma foto do pessoal reunido na casa do sitiozinho onde nós ficamos abrigados conversando: era uma reunião de trabalho, onde se debatia e se tomavam as decisões!

ANFITRIÃO:

A apreensão de aproximadamente 7.3 toneladas de cocaína representou um marco histórico! Pode nos conduzir àquele momento da abordagem, discorrendo como ocorreu a fase ostensiva da operação? Quais eram os principais riscos previstos e qual foi a sensação ao confirmar que toda a investigação havia alcançado o objetivo esperado?

CONVIDADO:

Caro amigo Dr. Clark, a nossa maior preocupação era saber quando os traficantes sairiam da fazenda e, como nós queríamos prender todos se possível e, principalmente, Vicentico e Nasrat, que eram as principais figuras! Na noite de sexta-feira, três de junho de noventa e quatro, nós ficamos sabendo que o Nasrat ligou para sua esposa, informando que a última carga chegaria no dia seguinte, que era um sábado, e que ele poderia sair de lá no domingo. Nosso sábado foi de revisão das nossas viaturas e armamento. Uma ansiedade danada! Os policiais dos postos de observação relataram o pouso de mais três aeronaves. Tínhamos que estar todos atentos e preparados! Por volta das vinte e uma horas, naquele sábado, fomos avisados pelos policiais do PO, que a carreta Volvo saiu da fazenda e passou pelo outro PO, indo em direção Sul. Rapidamente, fomos atrás da carreta. A carreta foi encontrada no primeiro posto de combustível, logo depois da cidade de Guaraí. O motorista abordado informou para gente que a segunda carreta viria logo, pois iria encontrar com ele ali no posto. Abordamos também a segunda carreta e, logo em seguida, chegava pela estrada um carro que já conhecíamos, onde estavam Nasrat e um outro traficante. Pegamos todos, as carretas e fomos para um posto da PRF no sentido Norte, porque aí teríamos condição de interrogar os presos e avaliar a situação. Outra preocupação era como eles estavam na fazenda! Nasrat nos informou que ele e o traficante que o acompanhava iriam voltar para fazenda depois das carretas seguirem para São Paulo. Ouvimos os presos e avaliamos que deveríamos deixar alguns policiais na PRF e os outros iriam entrar na fazenda, deixando as nossas viaturas na entrada da fazenda. Iríamos entrar a pé. Pelo que nós tínhamos ouvido dos presos, havia colombianos bem armados, inclusive com granadas! Não tínhamos certeza, também, se os traficantes estavam vigiando a fazenda, por isso, tínhamos que ter muita cautela. Entramos e não tivemos nenhuma surpresa. E, ao raiar do dia, Urbano pegou o megafone e avisou aos traficantes que a Polícia Federal estava ali. Quase em seguida, houve troca de tiros e, até, o lançamento de uma granada em nossa direção que, para nossa sorte, não explodiu! Depois de um tiroteio, o silêncio! Fomos avançando e nos deparamos com um ferido que era colombiano. Os outros fugiram pela mata. O colombiano foi levado em uma viatura nossa para o hospital em Araguaína. No decorrer do dia, aqueles que fugiram para a mata foram sendo presos e pude iniciar o flagrante. Ao final do dia apenas um fugitivo não fora localizado: o traficante Vicentico, filho de Dom Vicente, chefe do Cartel de Letícia! Na segunda-feira, encerrei o flagrante e representei pela prisão preventiva do Vicentico, que foi imediatamente deferida. No meio da manhã de terça-feira, Vicentico foi encontrado por policiais militares e nos foi levado para a fazenda. Lá, recebeu voz de prisão e pude interrogá-lo. Aliás, tem até uma passagem, também, interessante: quando ele chegou, ele estava fugitivo desde o domingo. Eram dois dias que ele passou no meio da mata! Estava todo sujo, suado, fedorento mesmo! E, antes do interrogatório, o Doutor Urbano disse que iria levá-lo para tomar um banho no riacho que tinha atrás da fazenda. Ele não queria ir de jeito nenhum! Achou que nós iríamos afogá-lo ou coisa assim! Até que, no final, ele viu que não era nada disso e ele cedeu, foi, tomou o banho e veio para o interrogatório. Aí, a investigação chegava ao final e o nosso objetivo de todo aquele tempo estava atingido, com a graça de Deus!

ANFITRIÃO:

Ao longo da carreira, muitos policiais acumulam experiências extraordinárias que permanecem, infelizmente, restritas aos arquivos institucionais. O que o motivou a transformar essa investigação em livro? Qual a importância de preservar a memória das grandes operações policiais para as novas gerações de investigadores?

CONVIDADO:

O intuito do livro foi prestar uma homenagem, direta ou indiretamente, a todos que trabalharam na Operação Alpha. Tanto que o livro foi dedicado a todos esses profissionais cujos nomes constam na dedicatória do livro. É óbvio, que uma investigação tão difusa, se escrita por um outro participante, poderia ter um olhar sobre alguns outros detalhes! Eu procurei me ater ao início da operação, à trajetória do Nasrat, à criação de bases estaduais, ao telefonema que mencionava o volume da cocaína e os dias que passamos em Guaraí, até o final da missão. Penso ser importante que as novas gerações de investigadores devam ter em mente que só o trabalho, o foco, a persistência, a dedicação, o trabalho de grupo podem dar resultados efetivos no trabalho policial! Não existem - posso garantir isso - não existem super-heróis na polícia! O trabalho coletivo é o que traz resultado! A instituição pode e deve reconhecer o trabalho de todos!

ANFITRIÃO:

Passadas mais de três décadas, o crime organizado tornou-se ainda mais globalizado, financeiramente sofisticado e tecnologicamente avançado. Quais princípios investigativos empregados na Operação Alpha permanecem absolutamente atuais e quais aspectos da atividade policial sofreram maiores transformações desde então?

CONVIDADO:

Na minha modesta opinião, no caso da Polícia Federal logicamente, os investigadores devem ter um conhecimento básico da área financeira, tributária e tecnológica porque os crimes de atribuição da Polícia Federal, geralmente, têm um intuito direto ou indireto do lucro e em detrimento da União. Além disso, cada policial deve buscar o máximo de conhecimento possível sobre os delitos que são investigados pela área em que trabalha. A troca de conhecimento com outros órgãos de segurança pública do Brasil e do exterior também são essenciais! Além disso, a Polícia Federal deve continuar a suprir as áreas de Inteligência, Criminalística, operacional e Administrativa com os equipamentos necessários para o bom cumprimento das investigações. Só assim vão aparecer resultados substanciais!

ANFITRIÃO:

Dr. Borges; sua trajetória antes de ingressar na Polícia Federal chama bastante atenção! Fostes seminarista, estudou Jornalismo e Ciências Contábeis, experiências que, à primeira vista, parecem bastante distintas da atividade operacional policial! Olhando hoje para sua carreira e, especialmente, para a condução de uma investigação histórica como a Operação Alpha, em que medida essas vivências anteriores contribuíram para moldar as suas competências de investigador e de líder? É possível afirmar que valores como disciplina, ética, capacidade de ouvir, senso crítico, comunicação e raciocínio analítico, desenvolvidos nesses diferentes ambientes, foram determinantes para a construção da sua identidade profissional na Polícia Federal?

CONVIDADO:

Caro Dr. Clark, além de ter sido seminarista por sete anos, ter passado pelo curso de Jornalismo - que não conclui -, me formado depois em Ciências Contábeis e Direito, eu também fui empregado CLT e empreendedor, antes de passar no concurso da PF. Sim! Foram atividades bem distintas da área policial! Mas, todas essas experiências, estudantis e profissionais, me moldaram profissionalmente! Os valores que você citou como disciplina, ética, capacidade de ouvir, senso crítico, comunicação e raciocínio analítico desenvolvidos em minha trajetória foram fundamentais na missão policial! Permito-me fazer um comentário: o concurso para a Polícia Federal apareceu na minha vida logo após me formar em Direito. Alguns colegas da turma me convidaram para participar de um grupo que iria estudar para esse concurso. Eu relutei em aceitar, porque nunca havia pensado em ser policial! Éramos um grupo de oito formados e estudamos por alguns meses. Depois das provas escritas, passamos a ser quatro, apenas! Depois disso, eu não queria continuar, pois, tinha preguiça da atividade física e a prova física era obrigatória! Os colegas insistiram e fui até treinar com eles. Quando fomos fazer o teste físico, o delegado que supervisionava a prova me disse que eu não iria passar porque eu era muito baixinho! E eu lhe respondi que trabalharia com meu cérebro e não com a minha estatura. Que não tinha nada dessa importância! Resultado: fui o único do grupo que estudou junto que passou! Eu não estava pretendendo ir para a Academia, não, mas me senti desafiado em fazer Academia da PF e fui! Lá, passei quatro meses e me formei. E, no mês seguinte, tomei posse em São Paulo como Delegado de Polícia Federal. Essa é a minha trajetória do início da polícia!

ANFITRIÃO:

Mestre; estamos marchando para o final de nossa conversa! Foi uma enorme honra revisitar, pelas suas palavras, os bastidores de uma investigação que marcou a história da Polícia Federal brasileira! Seu livro não registra apenas a apreensão de uma gigantesca carga de cocaína. Ele preserva uma importante memória institucional, demonstra o valor da inteligência policial, evidencia a importância da liderança investigativa e inspira novas gerações de profissionais que enfrentam, diariamente, organizações criminosas cada vez mais complexas! Mais uma vez, agradeço profundamente sua disponibilidade, sua contribuição à literatura especializada e, sobretudo, os relevantes serviços prestados ao Brasil ao longo de sua trajetória profissional! Deixo este espaço para suas considerações finais! Grande abraço!

CONVIDADO:

Eu lhe agradeço essa oportunidade de participar do Podcast Hextramuros! É uma honra para mim! Eu acredito também que é sempre pertinente que os assuntos de segurança pública sejam trazidos à sociedade! Deixo aqui o meu abraço a todos os policiais federais - em atividade e aposentados - lembrando que, sempre, o trabalho policial deve ser realizado em prol da sociedade e não de governantes! E a você, meu amigo, continue nessa missão com muito sucesso! E parafraseando o Hino da Polícia Federal, quero dizer que me sinto orgulhoso de ter sido Policial Federal! Que Deus nos abençoe! Um grande abraço!

ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Este foi mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! Acesse nosso website e saiba mais sobre este conteúdo! Inscreva-se e compartilhe o nosso propósito! Será um prazer ter a sua colaboração! Pela sua audiência, muito obrigado e até a próxima!

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About the Podcast

Hextramuros Podcast
Vozes conectando propósitos, valores e soluções da segurança pública, justiça criminal e tecnologias!
Ambiente para narrativas e entrevistas com pesquisadores e/ou profissionais da segurança pública, justiça criminal e empresas de tecnologia, no intuito de estabelecer e/ou ampliar a conexão com temas, produtos e serviços de interesse das referidas áreas.
Trata-se, também, de espaço em que este subscritor, lastreado na vivência profissional e experiência amealhada nas jornadas no serviço público, busca conduzir (re)encontros, promover ideias e construir cenários para a aproximação entre a academia, a indústria e as forças de segurança.

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Washington Clark Santos

Produtor e Anfitrião.
Foi servidor público do estado de Minas Gerais entre 1984 e 1988, atuando como Soldado da Polícia Militar e Detetive da Polícia Civil.
Como Agente de Polícia Federal, foi lotado no Mato Grosso e em Minas Gerais, entre 1988 e 2005, ano em que tomou posse como Delegado de Polícia Federal, cargo no qual foi lotado em Mato Grosso - DELINST -, Distrito Federal - SEEC/ANP -, e MG.
Cedido ao Ministério da Justiça, foi Diretor da Penitenciária Federal de Campo Grande/MS, de 2009 a 2011, Coordenador Geral de Inteligência Penitenciária, do Sistema Penitenciário Federal, de 2011 a 2013.
Atuou como Coordenador Geral de Tecnologia da Informação da PF, entre 2013 e 2015, ano em que retornou para a Superintendência Regional em Minas Gerais, se aposentando em fevereiro de 2016. No mesmo ano, iniciou jornada na Subsecretaria de Segurança Prisional, na SEAP/MG, onde permaneceu até janeiro de 2019, ano em que assumiu a Diretoria de Inteligência Penitenciária do DEPEN/MJSP. De novembro de 2020 a setembro de 2022, cumpriu missão na Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, no Ministério da Economia e, posteriormente, no Ministério do Trabalho e Previdência.
A partir de janeiro de 2023, atua na iniciativa privada, como consultor e assessor empresarial, nos segmentos de Inteligência, Segurança Pública e Tecnologia.